Vereadores, entidades protetoras de animais, produtores de eventos e peões participaram de uma grande discussão em Audiência Pública, nesta quarta-feira (21/05), na Câmara. O fim de rodeios e touradas que impliquem em maus tratos e crueldade aos animais, proposto em projeto de lei do vereador Zé Márcio (PV), exaltou ânimos, tanto dos defensores da iniciativa quanto dos que a rejeitam. A Audiência foi proposta pelos vereadores Chico Evangelista (PROS), Vagner de Oliveira (PR) Oliveira Tresse (PSC) e João do Joaninho (DEM).
Faixas, cartazes, palavras de ordem, vídeos, um grande número de inscritos ( só da plateia foram nove) e palavras de ordem foram usados durante os debates. O presidente da Câmara, Julio Gasparette (PMDB), se viu obrigado a fazer várias intervenções para manter a audiência sobre controle. Solicitou respeito a cada um que fez uso da palavra e chegou a ameaçar interromper a Audiência caso persistissem as ofensas pessoais. Alguns manifestantes criticaram a presença de pessoas de outros municípios. Em determinado momento, houve menção a uma fala do locutor de rodeio José da Rocha, mais conhecido por Juninho Brasília, no Facebook, com a leitura de seu pronunciamento considerado ofensivo aos juiz-foranos, o que provocou protestos.
Zé Márcio explicou que o projeto foi feito em conjunto com a ambientalista Miriam Neder e que o acolheu por assumir, como ser humano, a postura de proteger qualquer ser exposto a sofrimento. Ele sente que Juiz de Fora não quer mais rodeios, como já definiram 35 municípios de São Paulo e Fortaleza, no Ceará, nesta semana. Conforme artigo 225 da Constituição, a submissão dos animais a crueldade é impedida, o que já provocou a extinção da farra do boi e da rinha de galo. Mesmo com a Audiência, ele sente a necessidade da continuidade dos debates em função de vereadores não terem conseguido informações suficientes.
Chico Evangelista lembrou que a audiência foi solicitada para esclarecimento próprio e dos demais vereadores em busca de subsídios para se posicionarem. O vereador considerou o rodeio como um evento que atrai público para Juiz de Fora, município carente de atrações, e manifestou crença em que os envolvidos são profissionais em condições de selecionar os animais e os preparar para ao esporte disputa. Chico recomendou a todos ponderação.
Vagner de Oliveira também buscou informações concretas para se posicionar com consciência, declarando-se pela promoção de “rodeios saudáveis”. Da mesma forma, João do Joaninho, disse que a questão tem que ser analisada com profundidade. Ele deixou claro ser contra qualquer prática que provoque sofrimento e que a discussão foi feita para todos os vereadores terem condições de votar com consciência. Oliveira Tresse (PSC) esperava por mais subsídios para votar e sentiu que a discussão foi prejudicada devido aos ânimos exaltados.
Jussara Araújo de Almeida, professora da Faculdade de Direito da UFJF, exibiu um vídeo no qual são relatados maus tratos causados por instrumentos como peiteira, espora e corda americana. Esses instrumentos, conforme o vídeo, causam lesões cutâneas e até nos tecidos mais profundos dos animais. Neisa Teixeira, protetora dos animais, veterinária com curso de extensão, administração rural e em comportamento animal, também afirmou que os maus tratos estão provados através de laudos de pessoas idôneas. Além dos apetrechos usados durante as competições, citou grandes desgastes com treinos, transporte, som alto e outros fatores. Ela ainda recorreu ao direito ambiental ao conclamar o uso do princípio da precaução, usado em caso de dúvida sobre perigo de dano grave e irreversível.
O médico veterinário formada pela Universidade Federal de Viçosa, Luís Cláudio, considerou os rodeios um esporte honesto, lícito, com benefícios sociais, econômicos, culturais, realizado há mais de 15 anos em Juiz de Fora sem identificação de maus tratos. O Presidente da Companhia Brasil, Cláudio Manoel, ratificou que o rodeio é uma prática antiga e que os animais são castrados e bem tratados. Na mesma linha, o professor Tenório Vasconcelos, que se apresentou como especialista em estudos de comportamento animal pela Funep, disse que todos os laudos da USP foram revogados por falta de sustentação científica e apresentou trabalho divulgado na revista do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo. Ele mostrou fotos de animais se alimentando após saltar. Jussara de Almeida, entretanto, sustentou que os laudos da USP têm validade.
Acompanhando as discussões, a locutora Mara Magalhães, contou que o primeiro rodeio profissional foi feito por ela em Juiz de Fora, e que jamais participou de evento em que houvesse maus tratos aos animais. Mara, ligada a defesa dos equinos, convidou os protetores dos animais a atuar junto com os envolvidos com os eventos, como acontece nos Estados Unidos.