Publicada em: 08/04/2026 - 119 visualizações

A mão que acolhe - Arte, memória e reconstrução nos 173 anos da Câmara Municipal

A mão que acolhe -  Arte, memória e reconstrução nos 173 anos da Câmara Municipal (08/04/2026 00:00:00)
  • Artista gráfico Jorge Arbach presenteia Casa Legislativa com obra para marcar momento de reconstrução do município
 

 

Há imagens que não se esgotam no que mostram. São capazes de nos provocar e levar a reflexões profundas.  É assim que a obra criada pelo artista gráfico Jorge Arbach age sobre o que pensamos e sentimos em relação à Juiz de Fora de agora. É a mão acolhedora pensada e executada para marcar os 173 anos da Câmara Municipal. Nasce exatamente da interpretação, do gesto simbólico que se abre como abrigo.

À primeira vista, uma mão. Mas não qualquer mão. Ela é sentida antes da compreensão. Há nela a aspereza de quem trabalha, a pele marcada pelo tempo, mas também o calor de um toque que acolhe, que segura, que ampara quando tudo parece ceder. É a mão que consola no silêncio, que firma o corpo em meio ao desequilíbrio, que conduz com cuidado e firmeza. 

Entre seus contornos, as janelas lembram as casas. A estrutura que vai nos proteger e levar ao pertencimento da comunidade. Jorge Arbach explica ainda que a luz percebida discretamente entre os dedos é o calor, o aconchego da resistência. “Eu usei dois arquétipos. Um é a mão. A mão como elemento de apelo, carícia, contribuição, construção, mão trabalhando. O segundo arquétipo é a casa que busca abrigo, conforto do lar”, diz o artista.

O desenho, no entanto, não se oferece como resposta pronta. Ao contrário, tensiona o olhar. “Esse desenho não é descritivo, é interpretativo”, afirma Arbach. E é justamente nesse espaço de abertura que o espectador se torna parte da obra.

A imagem pede ainda envolvimento, tempo para refletir e a sensibilidade do olhar que vê o mundo com poesia mesmo nos momentos mais difíceis.  A intenção de Jorge Arbach é que a partir da imagem pronta, o espectador pare e pense sobre o momento de reconstrução que Juiz de Fora vivencia.  “O espectador vai fazer o caminho inverso”. 

Construção

A escolha dos símbolos não é casual. A cidade ainda carrega as marcas das chuvas de fevereiro, que deixaram 66 mortos, 8.500 desalojados e desabrigados. Feridas abertas no tecido urbano e humano. Nesse contexto, a obra emerge como um gesto de elaboração coletiva da dor. 

A mão representada carrega histórias, a necessidade do cuidado e da proteção. “Tudo que aconteceu em Juiz de Fora em fevereiro nos trouxe angústias. E estar realizando esse trabalho diminuiu essa angústia e fez sofrer junto também”, diz Jorge Arbach.

A obra dialoga diretamente com o momento institucional que celebra 173 anos de história da Câmara Municipal. A imagem, assim, sintetiza um espírito coletivo.  E é um presente do artista para a Casa Legislativa, que sempre constrói Juiz de Fora ao longo de toda a sua história. Para o presidente da Câmara, vereador Zé Márcio-Garotinho (PDT), a arte de Jorge Arbach é a forma da Câmara expressar como está acolhendo quem foi atingido pelas chuvas de fevereiro. “A cidade sofreu muito. Estamos todos machucados e carentes de abraço. O que essa arte nos mostra é que juntos podemos reconstruir nossa cidade. 


O artista

Nascido em Volta Redonda, Jorge Arbach adotou Juiz de Fora como o lar que representa. Na cidade da Zona da Mata Mineira, construiu uma trajetória que atravessa arquitetura, comunicação e artes gráficas. Foi técnico do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Juiz de Fora (IPPLAN),  professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Juiz de Fora, diretor da Editora da UFJF e membro do Conselho Diretor do Cine-Theatro Central. Tem uma produção artística com o desenho como linguagem principal. Atualmente, resgata símbolos de Juiz de Fora com a valorização dos ladrilhos hidráulicos produzidos pela Fábrica Pantaleone Arcuri.  “Meu território é a imagem. Minha forma de escrever o mundo é o desenho”.


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